28 janeiro 2010

Escola do Desporto - Reflexão - II

A VIOLÊNCIA NO FUTEBOL NA VISÃO DE SEUS ACTORES

Roberto Ferreira dos Santos (da Faculdade de Ciências do Desporto e Educação Física)
O objetivo desse artigo é apresentar a visão de violência no mundo futebolístico português, na perspectiva de seus actores principais. Sendo parte de uma pesquisa maior – minha tese de doutorado – apresento aqui, o capítulo referente às entrevistas realizadas com os especialistas.
Estas entrevistas tiveram como objetivo principal captar determinados factos que a observação dos jogos e a análise dos jornais não conseguiram revelar.(...)Nesse sentido, a pesquisa envolveu a observação do futebol português por três dimensões; a observação sistemática dos jogos nos campos e pela TV, as análises das notícias dos jogos publicadas em jornais portugueses entre 1993/96 e as análises das entrevistas.
Alguns excertos:
Na opinião dos atores a violência é uma resultante do temperamento individual de cada atleta e da relação deste com o meio ambiente.(...) Para outros essa evidência não é tão óbvia. Para esses, o que existe são jogadores que circunstancialmente tornam-se violentos.(...)o descontrole momentâneo é resultado de três situações.

Na primeira, o descontrole está relacionado com a revolta perante um erro ou a identificação de uma atitude mal intencionada por parte da arbitragem.
Na segunda, a incapacidade de resolver a situação, dizendo de outra forma, a incapacidade em controlar o adversário, provocaria a violência.
Na terceira, o ambiente circunstancial do jogo, e de uma forma mais persistente e constante, o ambiente onde praticam o futebol.

No que diz respeito ao ambiente circunstancial, reconhecem que de alguma forma também está ligado à atuação do árbitro, pois geralmente em função de algum comportamento este, considerado como erro técnico, erro de interpretação, ou mesmo má intenção, é gerado um clima que faz com que reajam violentamente. Muitas vezes colegas ou pessoas externas ao jogo incentivam esses comportamentos.
O meio ambiente onde praticam o futebol, geralmente pode contribuir para essas situações. Por exemplo, um dos atores afirmou que, seu técnico, várias vezes, comentava que deveria jogar "... à moda do Porto", referindo-se ao facto que, na opinião desse técnico, o Porto ter projectado uma imagem de seus jogadores, que refletia o empenho dos mesmos durante os jogos, mas que esse empenho, frequentemente, tornava-se exacerbado e gerava violência.
Em ambas as situações citadas anteriormente reagem violentamente, embora, posteriormente ao acontecido, reconheçam que estavam errados, e se justificam dizendo que no momento, diante dos factos e vivendo intensamente o jogo, não conseguiram controlar-se.(...)Essa forma de comportamento criada pelos jogadores para tentarem driblar as regras e a avaliação dos árbitros, muitas vezes pode transformar-se em conflitos, (...) que infelizmente nem sempre conseguem controlar-se e rompem com essa tolerância cínica recorrendo às violências físicas.
(...)
Um ponto que certamente é importante para as discussões futuras, é aquele que se refere à identificação das categorias da violência. Quando perguntados se identificavam outras formas de violência além da física, e especificamente confrontados com a pergunta sobre se a atuação do jogador Maradona, na Copa do Mundo de 1986, onde fez um golo com a mão, fora uma forma de violência, muitos atores, inicialmente, ficavam em dúvida, para posteriormente responderem afirmativamente. Alguns atores, antes de reconhecerem que era efetivamente violência, porque violava as normas do jogo, adjetivavam este comportamento como inteligente, esperto, habilidoso, etc..
(cont.)
(...)Especificamente os jogadores entrevistados na nossa amostra, afirmaram que nunca trabalharam com técnicos que explicitamente incentivassem a violência, mas também afirmaram que já presenciaram outros técnicos, e até dirigentes, incentivarem esse tipo de comportamento, inclusive nas categorias de formação. (...)Entretanto, alguns atores afirmaram que determinados técnicos sugerem de uma forma velada a necessidade do uso de alguma violência, porque as situações de jogo assim o demandam. Mesmo que não usem o termo violência, utilizam expressões que inevitavelmente levam o jogador a adotar comportamentos violentos.(...)Um dos entrevistados foi categórico ao afirmar que alguns técnicos dizem "... você não joga porque não põe o pé..." no sentido de que o jogador devia jogar mais duro, para que pudesse ser escalado.
(...)
A opinião unânime dos atores é que a atuação do árbitro é fundamental para o bom desenvolvimento do jogo. Todos percebem que muitas vezes é difícil para o árbitro precisar determinados lances, mas, por outro lado, também percebem que determinadas jogadas são julgadas de uma forma completamente parcial, por haver má intenção. Especificamente esses momentos, na opinião dos jogadores, são aqueles, que mais revolta provocam, gerando atitudes violentas. (...)
Uma opinião extremamente importante sobre esse assunto é a de um dos atoresentrevistados. Para ele as suspeições sobre corrupção - mas não só corrupção, os comportamentos suspeitos de um modo geral, sejam eles praticados dentro ou fora dos campos - induzem à concordância tácita, de que a vitória só pode ser alcançada dessa forma.
Ou seja, na opinião dele existe a construção de uma ideologia que interioriza a idéia de que o 'vale tudo dos bastidores' é a única forma de conquistar vitórias. Em sua opinião, essa forma de ver o ambiente futebolístico nem sempre retrata a realidade, e além do mais, provoca uma suspeição generalizada que de forma alguma é positiva para o futebol.
(...)
Essa constatação permite-nos levantar duas hipóteses. A primeira seria a de que as regras de futebol talvez tenham sido concebidas de uma forma muito severa, e o comportamento dos árbitros, atualmente, seria uma maneira, informal, de corrigir essa distorção. A segunda seria a de que as regras são claras quanto às formas de punição e o comportamento dos árbitros na realidade é uma distorção das mesmas, distorção essa deriva da de uma permissividade, que favorece a violência e consequentemente, a freqüente má qualidade do jogo. As observações e análises efetuadas até o momento, sugerem-nos a segunda hipótese, como sendo aquela que efetivamente ocorre. Mais ainda, em função dessa permissividade, percebemos que, quando um árbitro faz uso de seu real poder em função das regras, o que ocorre é que sua atuação passa a ser considerada excessivamente punitiva e, como conseqüência, motivo de fortes críticas. Em ambas as situações reagem violentamente, embora, posteriormente ao acontecido, reconheçam que estavam errados, e se justificam dizendo que no momento, diante dos fatos e vivendo intensamente o jogo, não conseguiram controlar-se. (...)
Ao compararmos as entrevistas dos atores, algumas constatações podem ser feitas. A primeira delas, é que, para praticamente todos os intervenientes neste desporto, a paixão pelo futebol e a beleza da sua arte são fatores determinantes para a escolha da profissão, mas, além disso, têm a perfeita noção de estarem envolvidos num ambiente de difícil convivência.
Viver neste ambiente difícil implica adquirirem a sabedoria de não se deixarem envolver por conflitos que possam existir, e simultaneamente serem capazes de manifestar sua arte. No caso específico dos jogadores, muitas vezes as influências externas se fazem refletir dentro do campo, gerando manifestações de violência.
Por ser um desporto, muito popular e gerando grande envolvimento da massa associativa, os jogadores de um modo geral sentem-se muito solicitados, e essa solicitação pode influir nas manifestações de violência. Essa solicitação assume um caráter especial, quando clubes de algumas cidades se confrontam, e aí, nesses casos, tende a haver um aumento de tensão, gerando também situações férteis em conflitos.(...)
O que também os mobiliza muito, é a percepção da exigência do técnico quanto à sua forma de atuar. Em relação a essa exigência, muitas vezes vivem um conflito, pois apesar de não tencionarem atuar da forma que o técnico solicita, também se sentem induzidos a tal comportamento, pois evidentemente têm medo de serem descartados nas convocações. (...)
Com relação à paixão dos técnicos, o aspecto colocado em destaque é aquele que diz respeito à luta pelo desempenho, a luta para fazerem seus atletas atingir performances altas.
Em todas as conversas, quando esse assunto foi discutido, ficou visível a forma emocionada como falavam deste aspecto. Certamente esta emoção, também é fonte de possíveis manifestações de violência, pois não devemos esquecer que existe certa insegurança no ambiente futebolístico, gerada pela necessidade da vitória constante, ou seja, podemos entender que vivem permanentemente uma situação limite. Quando referimo-nos à fonte de possíveis manifestações de violência, pretendemos afirmar que essa emoção, pode transformar-se, por exemplo, em ofensas concretas durante os jogos, ou pode também acarretar comportamentos menos dignos, nas relações com os atletas, ou mesmo ofensas entre técnicos.(...)
artigo completo aqui:
http://www.alesde.ufpr.br/encontro/trabalhos/10.pdf
tese de doutoramento:
http://dited.bn.pt/30244/1236/1654.pdf
Ana

1 comentários:

[A] disse...

Resumindo, os principais factores que os jogadores admitem nas entrevistas torná-los violentos serão:

- actuação da arbitragem- ou demasiado permissiva ou demasiado punitiva (em ambas as situações reagem violentamente)
- as suspeições sobre corrupção e os comportamentos suspeitos de um modo geral, sejam eles praticados dentro ou fora dos campos que os leva a entrar em campo com a ideia de que vão ser prejudicados e por isso vão já predispostos a ripostar de qualquer forma
- a incapacidade de resolver a situação; a incapacidade em controlar o adversário
- terem dificuldade em identificar as várias categorias de violência (violar as normas do jogo, é muitas vezes adjetivado como comportamento inteligente, esperto, habilidoso, etc..-é o ‘chico-espertismo’)
- as pressões dos técnicos e dirigentes; alguns sugerem de uma forma velada a necessidade do uso de alguma violência, porque as situações de jogo assim o demandam, utilizando determinadas expressões ou linguagem
- as influências externas (tanto a solicitação como a hostilidade da massa ‘associativa’) que se fazem reflectir dentro do campo.

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